Perguntas e Respostas

Pergunta:

“Queria aproveitar o post para trazer algumas dúvidas a respeito desta situação em nossa escola: Sei que a investidura de um monge ocorre no Tokudô, mas gostaria de saber mais a respeito… Há graus? As competências, atribuições e faculdades são similares no Japão e como é aqui? Há uma percepção acerca do grau de realização de mestre e discípulo? A Reverenda ou Rev, Wagner Haku-Shin pode esclarecer? Sem qualquer pressa na resposta, já agradeço. Gasshô _/\_”

 

Resposta:
[Reva. Sayuri Tyō Jun]

Na nossa Ordem Shinshû Otani-ha um monge (mais corretamente, Ministro do Dharma, pois nós não seguimos estritamente as regras do Vinaya) só é considerado ‘monge’ aquele que passou pela Cerimônia de Ordenação Plena (Tokudô) que é realizado no Honzan – Templo matriz –  em Kyôto no Japão. É uma cerimônia que ocorre mensalmente todo dia 7. Tradicionalmente, no Japão, a partir dos 9 anos uma criança pode receber a Ordenação. É uma tradição que remonta ao Mestre Shinran que ordenou-se aos 9 anos de idade. Porém, isso não significa que qualquer pessoa pode apresentar-se para ordenar-se. Mesmo no Japão, crianças passam por treinamentos e provas. O que ocorre é que são crianças mas filhos de monges, nascidos e criados em templos, com uma longa linhagem e tradição monástica. Ou seja, é praticamente uma tradição hereditária e sucessória. Pessoas leigas podem, logicamente se ordenar, mas mesmo assim é um processo um tanto trabalhoso. O candidato deve estar formalmente ligado a um Templo-raiz, o seu Templo de origem, dirigido por um monge-residente (Jushoku) devidamente autorizado, ou seja, ser um Danka (famílias que são membros-fieis da comunidade mantenedora do Templo). É através da apresentação e responsabilidade deste monge que um candidato pode apresentar-se para as entrevistas e provas.

O Tokudô estabelece o primeiro grau (chamado Hirazá), a partir da Ordenação é que o monge começa a atuar (limitadamente) na difusão dos Ensinamentos. Comparando com a Arte Marcial, seria obter a faixa preta (Shodan) e a partir deste grau, começar a especializar-se verdadeiramente na ‘arte’, no Caminho. Com a Ordenação, é preciso alcançar o Mestrado sacerdotal. São dois graus de mestrado, com provas sobre Doutrina e prática (cerimonial e Shômyô – recitação), defesa de tese e retiros específicos, no Honzan. Esse mestrado não está atrelado ao mestrado acadêmico realizado via Universidades da Ordem, como a Otani ou a Dôhô e outras. A partir da obtenção do grau de Mestre – Kyôshi é que efetivamente começa a contagem de graus, são 24 no total, mas dentro destes há as classes intermediárias.

O Mestrado sacerdotal autoriza o ordenado a efetivamente ‘ensinar’ a Doutrina, a ser um professor habilitado, é o que dá autorização para trabalhar na difusão, ser chamado de Mestre – Kyôshi. A atuação de um monge com mestrado no Japão é em templos (auxiliando ou sucedendo), escritórios administrativos da Ordem, escolas, Dôjô, universidades, Betsuin regionais ou mesmo no próprio Honzan. Para assumir um templo (geralmente por sucessão) é preciso fazer um curso de habilitação específica para ser Jushoku (monge residente) e assim assumir perante a comunidade o Templo de origem. Normalmente o filho mais velho é quem herda o Templo e sucede o pai nas funções de Jushoku. Quando a família tem mais filhos, estes geralmente dedicam-se ao trabalho administrativo ou atuam como auxiliares em outros templos ou ainda, à carreira acadêmica como professor ou pesquisador.

E existe ainda o trabalho como missionário atuante no exterior. O missionário (Kaikyôshi), necessariamente tem que ser Mestre (Kyôshi), é uma função, não é um grau monástico. E ainda precisa de uma licença especial do governo japonês para atuar.

No Japão, somente com o grau de Kyôshi é que se pode oficiar os grandes ritos, fazer a homilia (Hôwa), dar palestras, cursos e retiros. Até então tudo que ele faz é supervisionado por um Mestre. Ou seja, ele só abre a boca com o consentimento do Mestre. O motivo é simples, quem passou pelo Mestrado, passou por todas as áreas de estudo (Shinshû-gaku e Bukkyô-gaku – estudos de Shinshû e Budismo geral), foi imbuído de todo conhecimento pertinente aos Ensinamentos do Mestre Shinran, passou pela prática de todos os Ritos, os grandes e os menores, conhece todas as recitações de todos os ritos, toda etiqueta, cerimonial e ritualística, desde como se prepara os ornamentos do altar até administrar a cozinha do Templo para a recepção de fieis.

No caso do Brasil, há menos rigidez nas exigências de qualificação, devido a urgência e falta de material humano. Vou nomear aqui os membros atuantes conhecidos para ilustrar melhor o trabalho e fazer as devidas adequações no final.

O Betsuin, Templo de São Paulo, é uma espécie de sucursal do Honzan, e o Superior deste Templo é o representante do Monshû (Grão-Mestre da Ordem, de linhagem sanguínea do Mestre Shinran). Atualmente é o Rev. Obata, e sua nomeação vem do Honzan, por tratar-se de um cargo de confiança. O Betsuin tem um papel doutrinário e são vários, espalhados em todas as regiões no Japão. Aqui no Brasil só temos o de São Paulo. O Honzan é uma estrutura tanto religiosa quanto administrativa, a parte religiosa se concentra na figura do Grão-Mestre e a administração está com o Secretário-Geral da Ordem, que responde a um parlamento com ministros e representantes de todas as regiões do Japão. Paralelamente aos Betsuin existem os escritórios regionais administrativos, no Japão são chamados de Kyômu-sho e os do exterior são o Kantoku-bu, ou como gostam de traduzir aqui, são as superintendências. Esta função é exercida pelo Kantoku (diretor), que no Brasil também é exercida pelo Rev. Obata, que acumula dois cargos, o de Rinbam (Superior do Betsuin) e Kantoku (diretor-geral da Missão). O Kantoku-bu exerce os trabalhos administrativos como gerenciar recursos e nomeações de missionários para os Templos de interior, cuidar de assuntos pertinentes ao bom andamento da Missão. No Betsuin trabalham como missionários os Rev. Imai, Shimizu e Kikuchi (que agora foi nomeado Superior do Templo de Assaí – PR, no lugar do Rev. Sasaki que retorna ao Japão). Estão a serviço do Betsuin os Rev. Mauricio, Jean, Leninha, Neide, Severino e Hernan – todos no mesmo grau de Hirazá (somente Ordenados). E ainda temos o Prof. Ricardo, que é missionário de função e nosso Decano máximo. Existe ainda no Japão os graus acadêmicos, para aqueles que se dedicam em ser professores como Ricardo Sensei. Ainda no Betsuin temos o Rev. Abe que é funcionário do Kantoku-bu, e é o tesoureiro da Missão.

A Missão no exterior, ou seja, a Missão fora do Japão se resume em América do Sul, onde a maior concentração está no Brasil, América do Norte e Hawaí (embora seja um estado norte americano, em termos de Missão é independente dos EUA).

Os demais missionários atuam no interior, como superiores de Templos. A princípio apenas Mestres – Kyôshi, poderiam assumir Templos, mas devido à falta de missionários formados, o Kantoku-san concede nomeações, oficializando ordenados para a função.

Os Templos do interior são autônomos e independentes, eles não são nem filiados nem subordinados ao Betsuin, existe uma ligação institucional por pertencermos à mesma Ordem.

Os missionários atuam nos seguintes Templos:

Brasília – Rev. Sugiura, Pres. Prudente – Rev. Benjamin, Araçatuba – Rev. Goto e auxiliar Rev.ª Emy, Marília – Rev. Izuhara, Bastos – Rev. Matsuda, Ribeirão Preto – Rev. Nakashima e auxiliar Rev.ª Altina, Campinas – Rev. Renato, Suzano e Mogi das Cruzes – Rev. Kawakami, Apucarana – Rev. Wagner e auxiliar Rev.ª Sayuri, Assaí – Rev. Kikuchi. E temos a situação de ordenados que estão à frente de templos, por nomeação sem serem missionários. É o caso de Curitiba – Rev. Jorge Sasaki, Maringá – Rev. Ryô, Campo Grande – Rev. Ueno, Guaimbé – Rev. Saito, Manaus – Rev. Higashi. O mesmo ocorria com Bauru (Rev. Ito) e Ribeirão Preto-Barretos (Rev.Sawanaka).

Geralmente a diferenciação da graduação é percebida pela cor dos paramentos que deve ter sido visível no Hô On Kô. As tonalidades avermelhadas são da família Otani. Os monges recém-ordenados vestem um koromô amarelo-canário e manto verde, azul ou lilás. Detalhes como a estampa do Mon (brasão), o tipo de estola “Wagesá” e a cor são marcas que distinguem os graus dos missionários.

A formação de Mestres brasileiros em tese pode ser feita de duas maneiras: estudar para prestar as provas, retiro e defesa de teses no Honzan. O que pela experiência é um caminho inviável por não termos uma formação estruturada que chegue ao mesmo nível dos candidatos do Japão. Até agora só temos o exemplo do Ricardo Sensei que conseguiu chegar ao grau de Mestre sem passar por uma escola de formação. A outra maneira seria exatamente por uma escola formal, ou seja uma graduação nas universidades do Otani-ha ou a Escola de formação, o Senshugaku-in em Kyôto. A principal barreira ainda é a falta de domínio da língua japonesa suficiente para frequentar as aulas de formação seja na escola de especialização ou nas universidades. Muitos podem alegar que esta é uma situação injusta e que poderiam abrir novas estruturas de formação mesmo que utilizando-se o inglês. O que ocorre é que a principal prática da nossa Ordem é o Monpô (escutar o Dharma) e ainda estamos numa fase de transição em que para não se quebrar nem perder a tradição, ainda precisamos aprender na fonte para só então podermos (re)transmitir fielmente os Ensinamentos do Mestre Shinran.

Sobre a relação Mestre-Discípulo, a princípio não existe esta ligação, como ocorre por exemplo nas Escolas do Zen, onde a linhagem é determinada pelo Mestre a qual você é aluno. No Shinshû esta relação estabelece-se de forma natural, sem um vínculo formal, novamente reportando ao Mestre Shinran que afirmava não ter nenhum discípulo. Como alunos sempre acabamos simpatizando com este ou aquele Mestre, portanto ao longo da vida podemos ter vários Mestres, nos desligar e nos ligar a outro. Por sua vez o Mestre também não se vê obrigado a adotar alunos como sendo seu discípulo. Costuma-se dizer que somos todos irmanados no Mesmo Caminho e juntos todos nós estamos aprendendo os Ensinamentos.

Porém, na prática todos nós, iniciantes ou mais graduados, sempre ‘adotamos’ um professor, ou vários. E os grandes Mestres sempre se postam como discípulos do Buda e praticantes do Nembutsu como foi o Mestre Shinran.

Um Mestre não é formado apenas pelo seu conhecimento intelectual, mas também pela sua realização e experiência. Um erudito não é necessariamente um Mestre e um Mestre não é obrigatoriamente um acadêmico. Na Ordem, formalmente chamamos de Mestre aquele que concluiu os estudos oferecidos como caminho a ser percorrido para capacitar alguém a guiar e ensinar e transmitir os Ensinamentos do Mestre Shinran. É um caminho árduo e a dedicação que isso impõe posteriormente é mais rigorosa ainda. Não basta vestir o manto e ser amplo conhecedor de Sutras e Tratados, é preciso saber vivenciar os Ensinamentos e aplica-los no seu dia-a-dia, com todas as demandas da vida secular e profana, equilibrar-se e manter-se firme no Caminho. A Ordenação é uma responsabilidade, um compromisso com o Buda, o Dharma e o Samgha. E ser Mestre é responsabilizar-se em guiar os outros no Caminho do Nembutsu.

 

 

Pergunta:

Muitos japoneses ao irem ao cemitério têm o hábito de oferecer incenso, comida, flores e também “oferecer” água naquela tabuleta memorial maior fincada no chão. Está última, é um ritual budista?

Resposta:

[Rev. Wagner Haku-Shin]:

Esses são costumes que têm origem nos ritos do taoísmo popular chinês e foram incorporados no budismo popular. Essa tabuleta comprida no túmulo chama-se “Sotobá” (que na verdade significa Stupa, aquela torre que contém as relíquias do Buda), e o costume de jogar água seria para refrescar o “espírito” daqueles antepassados que ainda estão atravessando o fogo dos infernos para purificar seus pecados.
No Shinshu, não condenamos isso, mas procuramos reinterpretar. Assim, lavar o túmulo ou o sotobá é visto como uma saudação, como no Hanamatsuri em que damos o banho ritualístico no Buda criança.

 

Pergunta:

Um “costume” que as pessoas têm é de quando o caixão sai do velório e vai para o enterro é quebrar algo como copo ou prato, logo após que o caixão deixa a sala.

Resposta:

[Rev. Wagner Haku-Shin]:

Na antiguidade as pessoas eram muito pobres e cada um tinha o seu Chawan e sua xícara para chá, apenas um por pessoa. Assim, quando a pessoa morria eles colocavam um chawan com arroz, mas com apenas um hashi espetado, significando que o falecido não teria mais como comer nessa casa. Quando o caixão saía eles quebravam esse chawan ou xícara para significar que o falecido não deveria mais voltar para casa pois ali ele não tem mais lugar.
É um costume que além de ser superstição pura, oculta um sentimento cruel em relação ao falecido.

Pergunta:

Meus parentes nunca gostaram que deixasse uma colher enfincada na vertical na panela de arroz, por exemplo. Sempre falaram que isso seria um costume nos rituais fúnebres.
Nossa escola tem algo assim?

Resposta:

[Rev. Wagner Haku-Shin]:

Existe um antigo costume de, nas cerimônias fúnebres colocar-se um “chawan” (tigelinha) de arroz e fincar-se apenas um “hashi” (pauzinhos que os orientais usam para comer) na vertical. Isso é uma superstição! Significa dizer para o morto para ele não retornar à casa pois não terá mais comida para ele (pois com um hashi só não se pode comer). Mas, pelo ponto de vista do Shinshu isso é completamente inaceitável. Nossos entes queridos falecidos são vistos como seres que foram renascer no mundo da Luz e Vida Infinitas e assim apenas oferecemos os alimentos como forma de agradecer a vida que nos vivifica.

Pergunta:

Qual a visão do budismo sobre comer carnes em geral?

Respostas:
[Rev. Maurício Hondaku]:
Vegetarianismo é como opção sexual, cada uma tem um.
Buda não era vegetariano e Shinran se dizia incapaz de ser, embora reconhecesse que deveria, mas incluia a vontade de comer carne como uma de suas paixões mundanas. Assim, quem quiser come, quem não quiser não come. Se puderem não matar um ser para comer, ótimo. Se houver causas e condições para que tenhamos que matar para comer ou para alimentar um filho, que seja. Lembrem-se que esse é um tipo de karma que não nos impedirá de renascer, mas as argumentações são válidas de ambos os lados.

[Rev. Wagner Haku-Shin]:
Se quiser comer carne coma, se não quiser não coma, mas não ache que por não comer você é melhor do que quem come. Não há relação de uma coisa com outra. Pelo menos não no Budismo.

 

Comentários estão fechados